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Por: Prof. Dra. Helena Águeda Marujo

 

Tenho-me guiado pela noção de que a teorização e investigação em psicologia devem também ser baseadas no estudo do bem-estar e não só dos problemas e da patologia, e se devem interessar em perceber a fundo e com rigor o que facilita e potencia as experiências subjectivas positivas, as forças dos seres humanos e das organizações que compõem , e o acesso a vidas com elevada qualidade psicológica e relacional. Defendendo também uma ciência aplicada, creio que através desse conhecimento podemos dar mais graus de liberdade às pessoas e grupos humanos que quiserem pensar como viver existências mais saudáveis, satisfatórias, comprometidas e com sentido de transcendência. A este movimento, que vai para além da “business-as-casual-psychology” (Peterson, 2006) tem-se designado Psicologia Positiva (PP).

Almejar e perceber a excelência, as excepções aos problemas as condições de maior capacitação, equilíbrio e florescimento humanos, tem vindo a ter um crescimento exponencial e a interessar investigadores e académicos um pouco por todo o mundo e, pessoalmente, a apaixonar-me por uma forma entusiasmante de pensar e concretizar a psicologia, e de a tornar uma ciência, ela mesma, optimista e com ânimo face ao funcionamento humano.

A utilidade da PP tem vindo a ser transversal, e hoje aplica-se em contextos de terapia, saúde, educação, empresas e trabalho, intervenção social e comunitária, economia, política, e até na sustentabilidade do planeta.

Investigar áreas menos estudadas dentro da psicologia – perante o enviesamento histórico do estudo e remediação dos problemas e patologias humanos – como são exemplos o estudo mindfulness, do fluir ou experiência óptima, do sentido de humor, da generosidade ou da gratidão, têm feito da PP um domínio cativante.

Defendendo com a PP uma ciência que respira, que entra em metamorfose, que renova ideias já antigas – não devidamente honradas pelas escolhas científicas posteriores – e que identifica práticas culturais que contribuem para vidas de qualidade.

Existem riscos e consequências da PP a que devamos estar mais atentos? Diremos que a configuração de um movimento ideológico, a proximidade com a Psicologia pop e com a literatura new age, a determinação prescritiva, do que é melhor para os seres humanos, ou a concepção de que a felicidade é apenas e simplesmente uma escolha dos seres humanos, todos espreitam na esquina, exigindo um olhar atento. Mas desde sempre que vimos alguns dos perigos e consequências sócio-culturais de uma psicologia tradicional que se especializou sobretudo em diagnosticar e rotular patologicamente, em centrar quase toda a sua investigação em amostras de estudantes universitários, em alimentar injustiças sociais (a psicoterapia é um luxo de acesso a poucos) ou em criar dependências de terapeutas todo-poderosos. Estes são também riscos de uma psicologia que não se pense e não se transforme.

Desfraldar os horizontes, refocar os métodos e temas de estudo – e abri-los ao melhor das pessoas e às pessoas no seu melhor – e manter o sentido critico, creio que esse é o caminho que a psicologia deve fazer, está a fazer, neste início de milénio.